sexta-feira, 30 de março de 2012

O que te dá saudade?

Saudade é um sentimento que só faz mudar de lugar. Eu sou alguém que vive sentindo saudade: de um cheirinho de café no ar, de um pensamento, de um sentimento, de pessoas, de lugares, de roupas... enfim, a saudade me chega nos cinco sentidos.

A saudade é. Só muda de lugar. Às vezes saudades nas mãos, nos braços, na boca, no estômago, nos cabelos, nos pés. Não me resta - como um ser que está na condição tempo-espaço -, outro sentimento a não ser uma saudade.

“Tá na hora de entrar, filha!”

“Esse calçou direitinho”

“Telefone!”

Frases soltas e cheias de sentido me fazem sentir saudade. Dos objetos que já tive: um par de meias, a TV preto e branco, aquele tempo em que imaginava quando fosse adulta.

Saudade das calças jeans grandes e largas da minha mãe – eu com oito anos – de ser pequenininha em relação aos outros. De perder tardes brincando com minhas irmãs, debaixo de um lençol preso às cadeiras da sala de jantar – nossa barraca do Saldanha.

Sempre senti saudade. Ela só ia mudando de lugar: do ano velho para o novo, da casa velha para a nova, da roupa velha para a nova... tudo novo me dava saudade. Não logo, mas depois de um tempo. Um tempo sem ver, sem ouvir, sem tocar, sem sentir. “Sem rir, sem falar”... parte da cantiga de roda em que se batiam palmas.

Saudade das nossas noites em que saíamos sem ter hora pra voltar... saudade de quando as horas pra voltar eram chegadas e o celular tocava: “Ulisses tá chorando, venham buscá-lo!”. Das primeiras cólicas, dos primeiros banhos. Mesmo com a pequena Marina, ainda sinto saudade. Cada filho é único.

Tenho saudade deles como se já estivessem por aí.

Saudade do calor da fogueira de São João, da minha mãe a me pegar no colo e me colocar na cama; do meu pai chegando em casa morto de cansado e assoviando canções de tão longe... saudade da meninada da rua, jogando bola, fazendo algazarra, sem saber e sem querer saber que um futuro nos esperava...

Continuo tendo saudade, de coisas diferentes, mas cada dia um pouco, às vezes um pouco demais. E acho que jamais estarei curada disto. Mas não é ruim, é bom. É muito bom.

ENSAIO SOBRE A ESTUPIDEZ

Sobre o Canal do Rio Grangeiro no Crato

Chuva no sertão é bom sinal. Essa é a máxima que afaga o peito dos nossos conterrâneos, na chegada de março, mês do nosso santo querido São José. Na cidade do Crato, há algum tempo, as comunidades que beiram o canal do rio Grangeiro, vem sofrendo justamente o oposto do senso comum do nordestino em relação às chuvas – teme por novas e belas chuvas, que adquirem agora um caráter ameaçador.

Há mais de um ano (janeiro de 2011) uma grande enchente arrasou o canal do rio Grangeiro, deixando desabrigadas várias famílias, rompendo casas, alastrando o horror, que só quem vê a casa desabar e o perigo iminente de perder a família e a vida, pode experimentar.

Bem, isto ficou no passado, ou no presente, já que passadas as chuvas, uma obra desqualificada e inútil provou agora, com a chegada de novo março, a sua ineficiência. Está aqui, a chaga aberta, para todo o Crato conhecer com quanta estupidez temos sido tratados e tratado a nossa querida cidade.

O trânsito está um verdadeiro caos. E isso não é sinal de desenvolvimento – como querem dizer alguns. É sinal de um profundo desrespeito a que estamos nos submetendo. Chaga aberta, agora o Crato inteiro está sofrendo a queda do canal, não somente a comunidade que a este abeira-se. Isto é interessante observar, pois enquanto o transtorno pertencia apenas às pobres almas que não podiam dormir ao som das gotas sagradas, só a eles cabia a angústia. E agora, egoístas como eu, também padecem de um tempo superior ao costumeiro – por conta dos engarrafamentos – para sair e chegar aos lugares. Agora o problema é de todos nós – do Lameiro, Seminário, Grangeiro, Centro, Pimenta, Caixa D’água... Agora dá para sentir que a ferida chega a atingir a todos nós.

O caos se instalou e a estupidez jamais foi tão nítida. Temos praticamente um caminho de ir e vir. E por este caminho, todos: topic, ônibus, caminhões, motos, Hillux, carroças... gregos, troianos e cratenses sentem a unidade do que é necessário: menos, muito menos estupidez, por favor. Neste, e em todos os sentidos, a política tem que servir aos cidadãos, principalmente no momento de urgência e fragilidade. O que temos observado é um duelo travado para saber quem vai conseguir maior antipatia no jogo político das urnas. Na estupidez, todos ganharam.